“E internet é criação. Estar na internet é criar.”
Assim como todos os anos, a XV Feira Pan-Amazônica do Livro, realizada em Belém (PA), trouxe autores diferenciados, para lançamentos de trabalhos, participação em palestras etc. Mas este ano o evento nunca esteve tão perto do público jovem, principalmente devido à participação do autor Ismael Caneppele. Considerado uma das mais importantes revelações da literatura brasileira contemporânea – desde o seu primeiro romance intitulado “Música para quando as luzes se apagam” –, Ismael Caneppele também foi responsável por escrever o elogiadíssimo “Os Famosos e os Duendes da Morte”, que foi adaptado para o cinema pelo cineasta Esmir Filho.
Nesta edição da Feira do livro, o autor foi convidado para participar da programação “Papo Cabeça”, com o objetivo de discutir sobre o tema Mundo Virtual: redes sociais – faces e interfaces. E não poderia ter sido uma escolha melhor, já que o autor se mostra um estudioso ávido acerca de redes sociais na internet, e porque a sua própria obra é pautada na relação interpessoal por meio da realidade virtual.
O Livre tráfego de informações, a base anarquista na qual a internet nasceu e, até mesmo, a questão da imortalidade através de pixels foram assuntos recorrentes neste encontro com o autor. Ismael também comentou sobre seus novos projetos, como a peça Kollwitestrasse 52, que será lançada nos palcos brasileiros em breve, sob a direção de Esmir Filho. Além de também divulgar o nome do próximo longa-metragem, também marcado pela parceria com o diretor de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, chamado A Baleia.
Segundo o autor, a peça é baseada na época em que ele vivia em Berlin, na Alemanha, país em que vai morar nos próximos anos para escrever o próximo romance, ainda sem título. E Para falar sobre estas e outras questões, o Ismael Caneppele aceitou responder a algumas perguntas:
Raissa Daguer: Em relação ao “Papo cabeça” que acabou de acontecer, apesar dos benefícios que a internet trouxe você não acha que ela também está começando a se apresentar como um prelúdio de uma realidade meio apocalíptica? Onde as pessoas se relacionam apenas no mundo virtual, criam outros “eus”, compõem personagens e, por conseqüência, acabam não se relacionando de forma real com outros seres humanos.
Ismael Caneppele: Eu não consigo acreditar nisso porque eu acho que as informações nunca trafegaram tão livremente entre as pessoas. Eu volto sempre a esse ponto, de quando a vida virtual aproxima as pessoas do mundo real, os contatos e como eles acontecem. (atualmente) O brasileiro nunca viajou tanto e é obvio que isso também tem uma influência de querer conhecer lugares, de trocar conhecimento com as pessoas.
Eu acredito que se você é uma pessoa fechada, você é uma pessoa fechada. E se você é uma pessoa fechada e tem internet, você é um pouco menos fechado. Eu acho que a internet não fecha as pessoas, ela é uma porta para que você conheça e interaja com mais pessoas. E a questão do apocalíptico, eu acredito que o apocalipse faz parte de todas as culturas que se aproximam de um final de milênio. O fato de entrar no ano 2000 nos assusta e nos trás essa idéia de apocalipse. Mas é tudo muito pessimista. É muito assustador, mas acho que as pessoas têm que começar a ver a internet como essa nova consciência que está surgindo no mundo, que nunca existiu uma nova consciência palpável para o ser humano. Pela primeira vez a gente está vivendo uma nova consciência, que é uma nova ferramenta. E esse mundo virtual do qual nunca se falou tanto, então eu não vejo como apocalipse, eu acredito no renascimento de uma nova realidade.
Raissa Daguer: E em relação aos “Famosos e os Duendes da Morte”, tanto o livro quanto o filme, você afirmou que a personagem Jingle Jangle já sabia que iria morrer, mas que ao mesmo tempo sabia também que iria viver para sempre no mundo virtual. Fala um pouco mais sobre essa “imortalidade” que a internet trouxe.
Ismael Caneppele: O que se fala muito é sobre se imortalizar através de pixels. Antes, para você se tornar imortal, para você ficar de certa forma, era preciso escrever um livro, fazer um filme, ou plantar uma árvore. A árvore eu não entendo (risos), mas o filme e o livro sim.
Essa idéia de que era preciso deixar rastros no mundo para que você se mantivesse aqui. Agora, existe mais uma ferramenta para se tornar imortal, você tem a internet, podendo criar toda a sua vida. E internet é criação. Estar na internet é criar. É criar um novo “eu”, e por mais que seja um outro “eu”, você está se revisitando e elegendo o que você quer que permaneça na internet. E é por isso que eu acredito nessa imortalidade que a internet vai trazer, porque as pessoas vão todas passar, mas as idéias estarão todas ali. Imagina ver conversas de MSN e scraps daqui a dez anos. O primeiro e-mail que você tem na caixa de mensagens, de quando você abriu, são “álbuns de fotografia”. São formas de ficar eterno ali.
Raissa Daguer: Lendo a sua obra, mais especificamente a que foi adaptada para o cinema, Os Famosos e os Duendes da Morte, parece que o personagem principal, o garoto sem nome (Mr. Tamborine Man) é meio autobiográfico. Ele foi baseado na sua vida?
Ismael Caneppele: O fato de as pessoas confundirem os meus dois livros como autobiográficos é porque eu escrevo na primeira pessoa. É complicado falar sobre os “Famosos e os Duendes da Morte” porque é impossível ser autobiográfico, já que a internet é ponto fundamental. Quando eu tinha 16 anos naquela cidade não existia internet, então já é uma realidade que eu não vivenciei. Porém não existe você criar uma obra que não seja você. Eu sempre falo que não é autobiográfico, mas é pessoal. As angústias, as questões, os desejos, os afetos, são meus, porque foi um personagem que saiu de dentro de mim. Então não tem como não ser eu.
Porém o autobiográfico é complicado porque eu não conheci um Julian da vida, uma Jingle Jangle até conheci, mas ela não se filmava, ela escrevia. E é minha amiga até hoje, ela não morreu. Mas a ponte é realmente do lado da minha casa mesmo, eu precisava atravessar ela para visitar meus amigos e muitas pessoas realmente se suicidaram ali. Então, acho que autobiográfico fica muito reducionista, eu acho que é pessoal. É meu universo, que eu vivi e, trago muito mais de uma prima minha. Nos dois livros é a figura dela que prevalece. Se daqui a dez anos ela pegar esse livro ela vai falar “Nossa, é a minha adolescência”, que eu transformei em um menino, mas existe essa garota.
Raissa Daguer: E depois do filme, sua vida mudou muito? Porque no filme você trabalhou como ator, então como é ser escritor, ator e, ainda, trabalhar nos bastidores do cinema?
Ismael Caneppele: Para mim é interessante o viés do ator, porque eu consigo saber – também quando eu escrevo para cinema – quem eu vou ser dentro daquilo. Então é como se a minha voz de escritor fisicalizasse em mim. E isso é maravilhoso para um escritor porque você começa criando as palavras, mas você sabe que essas palavras vão virar você. No caso do filme eu tive que emagrecer 25 quilos para o papel. Então foi físico, foi real, eu tive que virar um personagem, eu estava a 13 anos longe de São Paulo, eu não tinha nem o sotaque do Rio Grande do Sul. Precisei voltar a viver dois anos naquela cidade, para voltar a ser aquilo que eu estava escrevendo, que eu estava criando e que era parte do meu passado.
Agora que descobri que Sófocles, que escreveu “Édipo Rei” foi o Édipo, e todos os escritores trágicos que escreviam suas peças, também eram os protagonistas no palco. Então é incrível porque se aproxima muito também da música, de você escrever uma letra e depois cantar. Tem muito de ser trovador, de tirar a palavra só do texto escrito.
Raissa Daguer: Você está com algum projeto novo, tanto no cinema quanto na literatura?
Ismael Caneppele: O projeto mais próximo é uma peça chamada Kollwitestrasse 52, que é uma peça instalação teatro-documentário, e se passa em Berlin. Mas será feita no Brasil, com a direção de Esmir Filho de novo. O texto eu e ele escrevemos juntos. No cinema, eu e Esmir escrevemos um longa (metragem) chamado A Baleia, que está em fase de captação – onde eu sou o protagonista – e acredito que deve começar a ser filmado no início do ano que vêm. E na literatura, vou viajar para Berlin e morar lá para escrever meu próximo livro. E o blog também está sempre atualizado.
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Saiba mais sobre Ismael Caneppele por meio da editora Jaboticaba ou por meio do blog do autor.